Uso preventivo da mediação
- Thais Diniz Coelho de Souza
- 5 days ago
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Conflitos raramente explodem da noite para o dia. Mais frequentemente, elas evoluem por padrões reconhecíveis, intensificando-se gradualmente se não forem tratadas. O Modelo de Escalada de Conflitos de Friedrich Glasl oferece uma estrutura valiosa para compreender como as disputas se desenvolvem e quando a intervenção se torna necessária. Ao identificar essas etapas, mediadores, líderes e indivíduos podem escolher respostas mais eficazes e evitar danos relacionais de longo prazo.
Compreendendo as Três Fases da Escalada
Glasl descreve a escalada do conflito como uma progressão por nove estágios, agrupados em três fases principais. Cada fase reflete uma mudança na mentalidade, no comportamento e nos padrões de comunicação.

Fase 1 – Win - Win (Fases 1–3)
Neste estágio, os conflitos ainda são relativamente administráveis, e o diálogo continua possível.
1. Endurecimento - Tensão surge e desacordos iniciais surgem. As posições começam a se formar, mas a comunicação ainda é respeitosa.
2. Debate & Polarização - O pensamento torna-se mais rígido, enquadrado em termos de "certo vs. errado". As partes defendem seus pontos de vista com mais firmeza.
3. Ações, Não Palavras - A comunicação diminui, enquanto ações e comportamentos estratégicos aumentam.
➡ Nessa fase, a comunicação direta e a mediação geralmente são eficazes.As partes ainda estão abertas ao diálogo, e soluções cooperativas são possíveis.
Fase 2 – Win-Lose (Estágios 4–6)
A dinâmica de poder começa a dominar o relacionamento.
4. Imagens & Coalizões - Os estereótipos aumentam e formam alianças para fortalecer posições.
5. Perda de Reputação - Surgem ataques, julgamentos morais e tentativas de desacreditar o outro.
6. Estratégias de Ameaça - Ultimatos, táticas de pressão e coerção substituem o diálogo.
➡ Nessa fase, a intervenção de terceiros torna-se essencial.Facilitação neutra pode ajudar a prevenir maior deterioração.
Fase 3 – Lose-Lose (Estágios 7–9)
Dinâmicas destrutivas assumem o controle.
7. Golpes Destrutivos Limitados - As partes estão dispostas a prejudicar a outra, mesmo que isso custe pessoalmente.
8. Fragmentação do Inimigo - O objetivo passa a ser a derrota total do outro lado.
9. Juntos no Abismo - A destruição mútua é aceita, mesmo que ambos os lados percam.
➡ Aqui, a resolução racional de problemas é quase impossível.A intervenção em crises é frequentemente a única resposta viável.
O Limiar Crítico do Conflito
Pesquisas mostram que conflitos atingem um limiar crítico além do qual a regulação construtiva se torna ineficaz. Stoica-Constantin (2004) destaca que esse ponto de virada é marcado por:
Posições rígidas
Perda de empatia
Comportamentos hostis ou passivo-agressivos
À medida que tensões não resolvidas se acumulam, a confiança mútua se deteriora, levando ao afastamento e evitação, que alimentam ciclos disfuncionais (Cornelius & Faire, 1996).
Importante, a intervenção precoce não precisa ser formal. Iniciativas autênticas de comunicação podem reativar o potencial cooperativo e restaurar o diálogo. No entanto, sinais de alerta como:
Distanciamento emocional
Crítica indireta
Mudanças recorrentes de humor
Não deve ser visto como incidentes isolados. Em vez disso, são indicadores cumulativos de desequilíbrio relacional (Lilley, 2022).
O tempo desempenha um papel decisivo: quanto maior o atraso, mais difícil se torna a reparação do relacionamento. A eficácia depende não apenas de quando a intervenção ocorre, mas também de como ela é conduzida (Terec-Vlad, 2022).
A mediação como uma ferramenta estratégica de intervenção precoce
A mediação pode ser usada em qualquer estágio de escalada de conflito. No entanto, seu impacto é significativamente maior quando aplicado cedo.
Muitas vezes, as pessoas esperam até que os relacionamentos estejam esgotados ou gravemente danificados antes de buscar ajuda. A mediação torna-se um "último recurso". Essa abordagem ignora uma das maiores forças da mediação: sua informalidade e flexibilidade.
Nos estágios iniciais, quando a negociação direta já é difícil, mas a hostilidade ainda não se endureceu, a mediação:
Restaura a comunicação
Equilibra dinâmicas de poder
Incentiva o entendimento mútuo
Previne escalada destrutiva
Não há necessidade de esperar que o conflito se torne tóxico. A mediação precoce pode proteger relacionamentos, preservar a dignidade e abrir espaço para soluções criativas.

Reflexão Final
O modelo de Glasl nos lembra que o conflito é um processo, não um evento. Reconhecer sinais de alerta precoce permite que indivíduos e organizações intervenham antes que os danos se tornem irreversíveis.
Muitas vezes os conflitos escalam pelos simples motivos das pessoas acharem que não têm a “quem” ou a “o que” a quem ou a que recorrer nos estágios iniciais do conflito – não é algo que vale a pena procurar um advogado ainda; também não é um caso de “terapia”, “em algum momento as coisas vão se resolver”.
Modelos e teorias, como o de Glasl, porém, mostram que, quando se trata de conflitos, nem sempre as coisas se resolvem por si sós e que os primeiros sinais de escalada já são suficientes para uma intervenção. Contudo, esses primeiros sinais, na maioria das vezes, não são graves o suficiente para serem considerados “caso envolver um advogado” e muito menos “caso de polícia”. Contudo, isso não significa que uma “intervenção” não seja necessária para prevenir a escalada do conflito. A mediação, pela sua flexibilidade e informalidade, é um método totalmente adequado para fases iniciais de um conflito, já que não tem o "peso", de intervenções mais incisivas. A mediação deve ser vista como uma escolha sábia, proativa e preventiva. A mediação não tem hora ou motivo predeterminado para acontecer
Glasl, F. (2017). Selbsthilfein Konflikten. Konzepte, Übungen, Praktische Methoden (8th ed.). Stuttgart: Verlag Freies GeisteslebenTerec-Vlad, L. (2022).
Terec-Vlad, L. (2022) Early intervention in interpersonal conflict: Indicators, thresholds, and strategies for relational regulation. Theleologicae: International Journal of Postmodern Studies, 2(1).






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